Berlim Alemanha
O salto da capital alemã para as telas do cinema
deixou marcas indeléveis na memória do público. Do concreto para o
celulóide, Berlim acabou imortalizada em alguns clássicos e por estrelas
do quilate da alemã Marlene Dietrich (1901-1992), que, além de
protagonizar "O Anjo Azul" (1930), de Josef von Sternberg,
cantava seu amor à cidade perto da qual nasceu e onde pediu para ser
enterrada.
Um exemplo marcante da imagem de Berlim na telona está
no centro da imensa área verde do Tiergarten, onde repousa o Anjo da
Vitória. O local foi captado pelas lentes de Win Wenders em "Asas do
Desejo" (1987), na cena do pouso do anjo Damiel - ser espiritual que
se apaixona pela humana Marion. O filme acabou ganhando outra versão, em
1998, batizada de "Cidade dos Anjos" e protagonizada por
Nicholas Cage e Meg Ryan.
O submundo dos bares de Berlim no pós-guerra,
dissecando a vida noturna da cidade, foi tema de "Foreign Affair"
(1948), de Billy Wilder. Com mais um desempenho brilhante de Marlene
Dietrich, o filme mostra imagens aéreas espetaculares da cidade ainda
arrasada. O filme é contemporâneo de outra obra-prima sobre os horrores
da guerra, o sensível "Alemanha, Ano Zero", de Roberto
Rossellini, sobre o drama de crianças em meio aos escombros de Berlim. O
diretor italiano foi mais um dos que recorreram à beleza do Tiergarten em
suas filmagens.
Poucos, no entanto, souberam explorar a cidade como
Rainer Werner Fassbinder, morto por uma overdose em 1982, antes dos 40
anos. Nascido no último ano da 2ª Guerra, Fassbinder filmou, em 1978,
"Berlin: Alexanderplatz", cujo enredo se passa na década de 30
e se transformou numa das mais longas narrativas do período, com mais de
15 horas e meia de duração. Como a cidade ainda estava dividida pelo
muro e parcialmente em ruínas na porção Leste, o cineasta recorreu ao
subterrâneo das estações de metrô que sobreviveram aos bombardeios.
Outra obra de Fassbinder, de 1981, passada em Berlim
durante a guerra, entusiasmou os espectadores mundo afora. Era "Lili
Marlene", com a atriz Hanna Schygulla, que entoava a
canção-título, também gravada por Marlene Dietrich e Lara Andersen. A
personagem de Hanna, a cantora suíça do cantão alemão Wilkie, se
apaixona por um judeu que oferece resistência ao nazismo ajudando
refugiados.
Paralelamente à avenidona Ku'damm (o Champs-Elysées
da porção ocidental) está a Kurfürstenstrasse, outro lugar que rendeu
imagens marcantes no cinema. Ali foram realizadas cenas do barra-pesada
"Cristiane F." (1981), de Uli Edel, com Natja Brunckhorst no
papel-título. O grande chamariz da rua são as lojas alternativas, onde
é possível encontrar bolsas enfeitadas com discos de vinil,
quebra-cabeças com base nos trabalhos de Andy Warhol, tatuagens e
bijuterias fluorescentes. A avenida é conhecida entre os berlinenses como
um ponto de encontro de jovens e, muitas vezes, de circulação de drogas,
principalmente nas proximidades da estação de metrô.
Mais de 3 mil filmes para cinema e TV permitem
incomparáveis reflexões históricas. Esta foi a produção dos
tradicionais estúdios Babelsberg, criado em 1912 e ainda na ativa. Em
seus primeiros anos, com muito mais transparência do que era permitido à
mídia, imortalizou dramas humanos, modos de vida, ritmos muito
particulares e diferentes eras. Traçou um panorama formado por grandes
idéias e um tanto de excentricidades. Foi a "casa" de Marlene
Dietrich. Grandes sucessos e alguns fracassos fenomenais fizeram e fazem a
sua história.
O trabalho no estúdio esteve sempre intimamente ligado
à vida política do país: na verdade, a cinco diferentes sistemas
políticos. Um ditatorial em particular - durante os anos de chumbo grosso
do Terceiro Reich - teve grande impacto sobre sua produção. Boa parte
desse legado está exposto no Filmmuseum Potsdam. Curiosamente, o acervo
ocupa antigos estábulos reais de um dos palácios da cidade de Potsdam, a
19 quilômetros de Berlim. Aberto em 1981 no Stadtpalais, o museu oferece,
além de uma exposição permanente, algumas mostras temporárias sobre a
sétima arte.
A coleção permanente, renovada em abril deste ano com
o orçamento de mais de 1 milhão de euros, não se resume a clipes de
filmes e documentários, fotos e legendas. Apresenta também 220 objetos
cênicos e figurinos, 60 scripts originais e uma parafernália de
câmeras, projetores e outras peças de ponta tecnológica no começo do
século 20. Além das exibições, há uma sala de projeções no museu,
com programação diária de lançamentos e clássicos internacionais.
Filmes mudos, por exemplo, são acompanhados de acordes tirados de um
órgão Welte, de 1929.
Os estúdios Babelsberg mudaram de mãos este ano.
Saíram do controle da empresa francesa Vivendi e voltaram ao controle
alemão. Passam a ter, agora, uma orientação mais voltada para a
produção de filmes internacionais e continuarão ocupando seu atual
prédio, em um distrito de Potsdam.